sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Desafricanização das Tradições Afro-Brasileiras na Umbanda


"A Umbanda pode ser considerada uma síntese de diferentes tradições religiosas representadas pelos vários grupos étnicos e sociais do Brasil, que são freqüentemente antagônicos. Entretanto os umbandistas tem freqüentemente uma atitude ambígua em relação às tradições Afro-brasileiras. Isto reflete as tendências sócio-culturais dominantes na sociedade brasileira. A Umbanda se originou num período político turbulento que testemunhou, entre outros fenômenos, a emergência de movimentos nacionalistas e facistas. Esse desenrolar político culminou na ditadura de 1937, com o chamado Estado Novo. Foi durante este período de grande nacionalismo que a ideologia da democracia racial começou. De acordo com esta ideologia, que era baseada no igualitarismo racial, os vário grupos teriam tido igual importância na formação da civilização brasileira. Esta ideologia deu assim um ímpeto na crença de que o preconceito racial não existia no Brasil. Seus efeitos já tinham começado a se fazer sentir no final da década de 1920, com a nacionalização e institucionalização da cultura Afro-brasileira. Práticas culturais como o carnaval e as escolas de samba, que tinham sido relegadas ao mais baixo status por causa de sua associação com a classe social dos negros eram agora reconhecidas como componentes importantes da cultura nacional (Brown 1994: 206). Os estudiosos brasileiros também começaram a se interessar seriamente pela cultura Afro-brasileira, que desde o início era considerada de um ponto de vista folclórico. Ao mesmo tempo a ditadura aboliu os movimentos negros que lutavam contra a discriminação racial, que continuou profundamente enraizada na realidade social. O espiritismo, especialmente o baixo espiritismo representado pelas religiões Afro-brasileiras, era ainda proibido por lei. Durante o período da ditadura, que também representa os anos de formação da Umbanda, a perseguição a pessoas envolvidas no espiritismo se intensificou. Com toda a certeza era a perseguição a pessoas envolvidas no baixo espiritismo (isto é, em religiões Afro-brasileiras), que levou os umbandistas a se identificarem com o espíritas (termo usado pelos espíritas kardecistas para se identificarem). Escolhendo esta auto identificação os umbandistas se associaram com o Kardecismo e com o alto espiritismo. Parece que o termo espírita foi usado para esconder nomes e para dissociar praticantes das novas religiões de sua ascendência Afro-brasileira, um gesto que traz a reminiscência da máscara católica das religiões Afro-brasileiras durante certo tempo. Como foi mencionado, a ideologia da democracia brasileira era, e é, manifestada como uma hegemonia branca. Este estado de coisas revela-se como primeira tentativa de legitimar a Umbanda como religião. A legitimação envolve a desafricanização e o esbranqueamento da Umbanda. Em 1939 alguns fundadores dos centros originais da Umbanda do Rio de Janeiro, inclusive Zélio de Moraes, estabeleceram a primeira federação da umbanda, a União Espírita da Umbanda do Brasil (UEUB). A federação foi criada para organizar a Umbanda como uma religião coerente e hegemônica e assim obter legitimação social. Em 1941 a UEUB realizou a primeira conferência sobre o Espiritismo da Umbanda, que foi uma tentativa para definir e codificar a Umbanda como uma religião com direitos próprios, e como uma religião que une todas as religiões, raças e nacionalidades. A conferência é ainda conhecida por promover maior dissociação com as religiões Afro-brasileiras. Os participantes concordaram em fazer dos trabalhos de Allan Kardec a doutrina fundante da Umbanda. Mas os espíritos fundamentais da Umbanda, os Caboclos e o Pretos Velhos ainda permanecem como espíritos muito evoluídos. Pode-se afirmar que os participantes se esforçaram para legitimar a Umbanda como uma religião bastante evoluída. Por exemplo declarou-se que a Umbanda existiu como uma religião organizada por bilhões de anos, e estava assim à frente de outras religiões. Neste esforço para legitimar a Umbanda como uma religião original e evoluída, os participantes procuraram cortá-la de suas raízes Afro-brasileiras. A origem da Umbanda foi traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a Lemúria (um continente perdido), e daí para a África. Na África, continua a estória, a Umbanda degenerou em feiticismo. Desta forma foi trazida para o Brasil pelos escravos negros. (Federação Espírita de Umbanda 1942: 44-47). A influência africana da Umbanda não era assim negada, mas olhada como uma corrupção da tradição religiosa original, na sua fase anterior de evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismo africano, na forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes, defeitos psicológicos e étnicos. (Ibid.: 116). Outro jeito de sublinhar o caráter africano da Umbanda foi expresso no reconhecimento de que ela se originou na África, mas na África oriental (Egito), portanto na parte mais ocidental e civilizado do Continente. (Ibid.: 114). Um dos objetivos da conferência era desta forma traçar as raízes genuínas da Umbanda do Oriente. A invenção de raízes orientais- somada à negação das africanas- refletiu na definição do termo Umbanda, que se crê geralmente ser derivado da língua Banto. Declarou-se que umbanda teria vindo do Sânscrito aume bhanda, termos que foram traduzidos como "o limitado no ilimitado", "Princípio Divino, luz radiante, fonte de vida eterna, evolução constante" (Ibid.: 21-22). Os participantes se esforçaram em associar a Umbanda com coisas como as tradições religiosas esotéricas européias e as novas correntes religiosas da Índia, representada pela Vivekananda. A influência africana da Umbanda foi reconhecida como uma mal necessário que serviu meramente para explicar sua chegada e desenvolvimento no Brasil. O Candomblé, centralizado no nordeste do Brasil, era olhado como um estágio anterior da Umbanda, que havia se desenvolvido no sudeste. O Candomblé estava ainda marcado pela barbárie dos rituais africanos e assim associado com a magia negra. A lavagem branca da origem da Umbanda era expressa em termos como umbanda pura, umbanda limpa, umbanda branca e umbanda da linha branca no sentido de "magia branca". Estes termos contrastavam com magia negra e linha negra que estavam associados com o mal. Além disso, a divisão dos espíritos estabelecida, desenhou a linha entre aqueles da direita (bons), representados pela Umbanda, e os espíritos da esquerda (maus), representados pela magia negra. As únicas instâncias de identificação positiva da influência africana da Umbanda tem a ver com os Pretos Velhos (que eram vistos como pessoas simples e humildes, mas espíritos muito evoluídos), e com a África como um continente heróico e sofredor. A atitude dos participantes em relação à herança religiosa africana era assim caracterizada pela ambigüidade. Elas eram positivas e negativas, oscilando da tentativa de dissocia-los das tradições religiosas africanas até sua atitude distintamente paternalista para com a África, a quem classificavam com a imagem de humilde escrava. Os negros brasileiros eram aceitos porque afinal tinham alma branca. Extraído do Artigo: Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: Da Desafricanização para a reafricanização Tina Gudrun Jensen - traduzido por Maria Filomena Mecabô."

Apreciei a leitura "Da Desafricanização para a reafricanização", de Tina Gudrun Jensen, traduzido por Maria Filomena Mecabô, extraído do Artigo: Discursos sobre as religiões afro-brasileiras.
Por sua vez, creio que a Sra. Jensen, poderia ter ido um pouco mais fundo nas suas conclusões, pois alguns aspectos de natureza concreta, tangível e palpável, foram omitidas, talvez, mais por desconhecimento do que por um postura de ponto de vista.
Começando pelo título da postagem, creio que há um engano inconsciente sobre a questão de "Racismo" na Umbanda, pois a Umbanda, representada pelo Movimento Umbandista, talvez seja o único movimento filo-religioso que não tem o interesse de origens sociais, políticas, étnicas, ideológica, etc, daqueles que a procuram ou da qual participam.
Se formos considerar, na sua estrutura, a "Umbanda atual", antes da influência da raiz africana, as bases estariam na raiz indígena, que começou lá pelos idos de 1580, na aproximação dos jesuítas com os nativos do Brasil, visando o que os nativos usavam em seus beiços, quando começaram a sincretizar os santos com o panteão indígena, a partir das lendas locais. Curiosamente, a data comemorada como histórica da "fundação" da Umbanda, se refere a um fato que ocorreu, manifestando a Umbanda em um Centro Espírita (denominado Kardecista), em 15 de novembro de 1908.
A Umbanda, ou melhor, o Movimento Umbandista, na sua simplicidade se permitiu a cobertura de todos aqueles que estavam a margem dos interesses de uma época, favorecendo ao almagamento de conhecimentos e comportamentos de diversas origens, inclusive a africana, donde, se analisarmos detalhadamente, contribuiu com várias de suas denominações.
De certo, nas primeiras décadas do século passado, a hegemonia branca forçou a um estado de coisas, onde inclusive, muitos terreiros se travestiam de "Tendas Espíritas de alguma coisa", para evitar que a polícia batesse à sua porta.
Não concordo com a questão de desafricanização para a reafricanização, pois a Umbanda ou melhor, o Movimento Umbandista tem, creio eu, a perspectiva de "nacionalização", representando um estado de espírito religioso formado no Brasil. A questão de se afastar ou de se aproximar mais de outros conceitos, cabe tão somente àqueles que o praticam. As similitudes entre diversos movimentos, poderá realizar aproximações e, se atender aos objetivos de bem-estar, independem da forma.
Se buscarmos as raízes do Movimento Umbandista, envolvendo todos os caminhos percorridos, veremos que mais ou menos, algumas características são preservadas de fontes originais, nas partes e não no todo. Se aprofundarmos ao Candomblé, veremos que raríssimas Roças preservam algo próximo às suas origens africanas, pois a grande maioria está num estado inconsciente de identidade, pois se vê muito "Umbandomblé", onde muitos ritos ditos como originais, não passam de deturpações alteradas ao longo dos anos. Por sua vez, outros conceitos ou perspectivas de origem são só especulações, pois se formos buscar nos estudos arqueológicos, inclusive no Brasil, veremos registros semelhantes em diversas partes, permitindo tirar conclusões pessoais de que a essência da Umbanda transcende os nossos registros atuais.
Quanto ao termo "esbranqueamento" da Umbanda, também não concordo, pois as características étnicas de cada grupo que o pratica é que vão definir estes grupos. Certamente, um Terreiro no Rio Grande Sul terá uma característica étnica diferente de um Terreiro no Rio de Janeiro. Muitos afirmam que todo brasileiro tem suas origens em pelo menos em três contimentes (americano, africano e europeu). Independente do que dizem, na minha genealogia (física, concreta, dirá das espirituais), tenho bisavós e tataravós índios, africanos e europeus. De que raça eu sou? Pelo meu nome civil dirão que sou o "Caco Antibes", mas e daí? O que importa: é o fim ou o meio? Não faria parte de uma nova raça?
Assim sendo, discordo de que se queiram cortá-la de suas raízes ou mesmo pensam que se estão cortando as raízes. Não dá! Pois as raízes são as únicas referências palpáveis, pois as demais são por demais abstratas e um pouco distantes de nossa compreensão, que certamente na atualidade, poucos têm acesso.
Talvez, para facilitar melhor esta compreensão, o Movimento Umbandista deveria ser definido como sendo uma religião afro-européia-brasileira, assim se estaria realmente envolvendo os vários aspectos e formas religiosas do planeta, que formam a sua base.


Postado pelo Mestre Thashamara

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